Em minhas inúmeras investidas na busca frenética para uma recolocação no mercado, em inúmeras cidades de São Paulo, foi muito comum ouvir dos analistas de carreira que meu currículo era uma “colcha de retalhos”. Ouvi também que algo assim poderia ser remetido como “falta de foco na carreira”.

Se um analista vê dessa forma um profissional brasileiro, a impressão que se tem é que ele esteja analisando um candidato (geograficamente) na Europa dos anos 80 e 90. Um discurso que não condiz com a realidade atual brasileira, já de uma década.

Eu fui para Ubatuba/SP com 6 anos. Moro nesta cidade litorânea há muitos anos. Se perguntar ao paulista médio como ele vê um morador típico de Ubatuba, se surpreenderá com um discurso estereotipado: se for jovem, é o que vai à praia todos os dias, surfista, sem muito estudo. Se for mais velho, é dono de comércio, sem muito estudo, ou pescador etc, etc.

Eu sou completamente o oposto desse estereótipo (é errado e completamente sem propósito um paradigma assim). Desde jovem eu trabalho. Fui carregador de malas em hotel, recepcionista… e trabalhei como vendedor de cartões em bingo em SP, cartazista em empresa de laticínios, trabalhei em quitanda, em “operação praia limpa”, em “zona azul”, com propaganda de repelente, em empresa de estamparia, fiz “bico” em fábrica de gelo etc. Mas, em paralelo, sempre estudei com ímpeto para ser um vencedor.

Em 1996, eu saí de casa e fui para São Paulo, com o apoio de meus pais. Comecei a trabalhar com Comércio Exterior e já iniciei no Colégio Etapa o meu cursinho, ficando lá por seis meses. O suficiente para passar na faculdade de Análise de Sistemas, com segunda opção em Administração na Universidade Paulista. Devido ao trabalho, optei por estudar à noite e fiquei com a Administração (foi paixão extrema desde o começo).

21 anos se passaram e hoje, possuo oito formações acadêmicas, sendo duas em andamento concomitantemente. Já trabalhei em duas grandes multinacionais (Alspac e Amway), abri minha empresa para que eu pudesse desenvolver um trabalho de qualidade para meus clientes, possuo inúmeros cursos de desenvolvimento pessoal e profissional. Estudei Administração nos EUA em uma das melhores faculdades do mundo (University of Tampa, na Flórida), tenho dois MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, falo e escrevo bem o Inglês, falo um pouco de Alemão e hoje atuo em três esferas: docência, desenvolvimento para Web e consultoria. Tenho dois livros publicados e estou escrevendo um terceiro.

A pergunta é: Ubatuba é o limitante? A geografia ou o estereótipo? A raça ou sexo? Vejo muita gente com dinheiro que detesta estudar. E vejo gente sem tanto glamour financeiro, com dívidas homéricas evoluindo culturalmente para nunca depender de ninguém na vida e fazer a diferença no mundo!

Eu pergunto novamente. Um currículo assim é “retalho”????

O mercado está passando por crises sucessivas. Muitas empresas, hoje nas capitais, colecionam currículos e proferem que o mercado “carece de profissionais qualificados”. É uma “meia” verdade. “Meia” devido ao fato de que muita, muita gente se acomoda e não evolui. Acha que já está “bom” com uma graduação. Mas, o mercado muda, o conhecimento muda, a tendência muda. As pessoas mudam. A outra metade da verdade é que as empresas criaram uma peneira gigante para auferir apenas aqueles que interessam em termos salariais. Um profissional de quarenta anos com oito formações acadêmicas deve custar caro e é esse o sentimento da maioria dos candidatos.

Os mais novos possuem um perfil mais “leve” e interessante, versátil e maleável. Há muitas pessoas novas com notório conhecimento técnico, mas, são preteridas por critérios ocultos das empresas que pregam uma coisa e apresentam antagonismos gritantes quando tentam “peneirar” os candidatos. Exemplos? Vamos lá: uma empresa de tecnologia que precisa de um programador PHP nível intermediário. Mas, exige: JAVA, Linguagem C, C#, Python, JQuery, HTML 5 etc. São critérios que, talvez, os recrutadores desconhecem a respeito das próprias necessidades dos cargos, enlouquecendo qualquer candidato. Eu mesmo já passei por isso. Alguns critérios das empresas que são pontos de análise: o financeiro que desperta muita indignação por parte dos candidatos. A idade é outro fator preponderante. Os outros critérios são o “banco de talentos”, idade, geografia e sexo. O mais importante deveria ser a dimensão das habilidades e competências, sem as constantes e esdrúxulas concepções acadêmicas que um engomadinho criou como verdade, como: não se coloca foto em um currículo, ou, não se chama mais currículo. Agora é “résumé” etc. Ou então, a macrocefalia do cargo, inchaço de exigências de qualificações que serão inúteis no decorrer do exercício laboral.

As empresas mascaram suas escolhas com argumentos fracos e desenvolvem no candidato um trauma negativo de cobranças intermináveis, evitando inchaço de contratações de pessoas com habilidades distintas. Desejam o “faz tudo”, mas, não o contratam!!! Não é um paradoxo insano?

Por tudo isso, é necessário investimentos constantes em áreas correlatas que complementam outras. Nunca será “colcha de retalhos” ou “falta de foco”. A “lei de Darwin” é clara: adapte-se ou morra. Em Ubatuba, ou, em qualquer cidade, não existe desculpa quando se deseja evoluir e não depender das forças de mercado para empreender ou crescer em alguma empresa. Nenhum argumento sobre aquisição de conhecimento pelo estudo contínuo e diferenciado, pode destoar do sentido que ele realmente tem: evolução e adaptação.

Um recrutador que pensa assim, deveria rever sua posição e mudar completamente sua hermenêutica equivocada sobre histórico e escolhas de um profissional que visa evolução. Chamar de “retalho” é ofensivo e não é profissional. É uma visão torpe e míope de talentos. Um líder coach tem de perceber isso antes de proferir impropérios alucinados, incorrendo em erros homéricos. Falta estudo dirigido e análise fatorial para um profissional que comete uma falta dessa natureza, causando paralisia na empresa, evitando talentos e oportunidades de evolução.